09
Jan
08

A Magia de um beijo

Batia 18h de uma terça-feira de verão. Como era comum, estava na rua jogando bola com os meus colegas. Você pode estar pensando que eu era um verdadeiro vagabundo, mas não é bem assim! Eu tinha algumas obrigações a cumprir pela manhã antes de ir à tarde para a escola. Caso eu quisesse brincar à noite com os colegas, tinha que estudar no mínimo uma hora durante a manhã e ajudar a minha mãe nos a fazeres domésticos. Não era nada fácil. Despedi-me de meus amigos após a partida de futebol. Fui direto pra casa. Minha mãe se espantou quando me viu lá já indo para o banho sem ninguém precisar me chamar. Se ela soubesse que minha motivação estaria me esperando na igreja, certamente entenderia que eu não estava ali somente para ir à igreja. Terminei meu banho, coloquei uma roupa razoável, e antes de todos, já estava pronto para ir à igreja. Às 18:40 todos estavam pronto. Batemos em retirada para a igreja.

Milhares de pensamentos, perguntas e respostas, indagações terríveis tomavam o meu ser. Sentia-me muito ansioso para ver Márcia novamente, aqueles olhos vívidos e rosto angelical ainda me persuadiam os sentidos. Finalmente chegamos à igreja. Sentei ao lado de meus pais, como era de praxe. Comecei a olhar ao redor tentando encontrar Maria e Márcia. Meu coração palpitava e eu pensava com meus botões “Será que elas não vieram?”. Como uma luz resplandecente que rasga as trevas, veio pela porta dianteira do templo olhando para frente como uma noiva entrando numa igreja se aproximando do altar. Meu coração parecia saltar, sentia uma alegria que me arrebatava os sentidos, era o dia em que eu conseguiria executar a tão esperada salada-mista. Ela se aproxima de mim, e baixinho fala para não chamar atenção de ninguém:

- Oi Gê, tudo bem? Ainda estou esperando a salada mista!

Duas coisas me deixaram pasmos. A primeira foi o fato de ela ter me chamado de Gê. Nunca ninguém naquela igreja se dirigia a mim assim. A segunda foi a audácia em expressar que estava esperando por uma coisa que eu também esperava. Fiquei atônito, imóvel por alguns segundos. Olhei para ela, impressionado com tanta atitude e falei baixinho:

- Oi, eu também estava esperando por isso.

Ela saiu de fininho, eu esperei uns breves minutinhos até que tudo se organizasse lá fora. Minha mãe percebera a razão de tanta euforia em ir para a igreja em plena terça-feira, apesar de não ter ouvido os nossos sussurros. Olhou-me de rabo de olho enquanto eu me preparava pra sair. Colocando a mão na minha perna esquerda segurando-me no banco perguntou:

- Pra onde você vai filho?

- Vou lá fora mãe, minha amiga me chamou pra conversar com os colegas lá fora. Posso?

- Mas não vai pra rua, ta bom?

- Ta bom mãe.

Parti feroz. Praticamente cego. Cheguei ao mesmo lugar do último encontro e uma surpresa. Só Márcia estava lá. Fiquei mais nervoso ainda. Não sei como descrever, mas o nervoso se assemelhava a uma vontade avassaladora de abraçá-la e começar a beijá-la como se fosse a última coisa que eu iria fazer na minha vida.

- Cadê a sua irmã?

- Ela não veio hoje, ficou em casa com o meu pai. Eu vim com minha mãe hoje.

- Hmm. Entendi. Então como a gente vai brincar de salada mista hoje?

- Não quero brincar de salada mista! – Exclamou com um olhar de tigresa expressando quintas intenções por detrás daqueles olhos lindos.

Fiquei extremamente confuso, sem saber o que falar ou fazer. Tentei romper o silêncio para não me sentir mais tímido do que eu estava e perguntei:

- Mas você estava esperando a salada mista?

- Sim. E você não?

- Pra falar a verdade, eu pensei nisso desde o Domingo, será que agora…

Antes que eu terminasse a frase, ela me puxou pelo braço para um canto onde não estava no campo de visão das pessoas nem que passavam pela rua nem que estavam dentro da igreja. Era um lugar com uma luz bem turva, embaixo de um pé de papola que impedia o livre curso da luz. Tinha um canteirinho com outras plantas e um lugarzinho onde era possível sentar-se. Sentamos juntos e, como um momento de magia, nos olhamos e aproximando-se lentamente fizemos com que nossos lábios se encontrassem. Ela respirou fundo, parecia estar apaixonada. Minhas mãos percorriam as suas pernas, subiam pela cintura e abraçava-lhe como se não quisesse deixá-la fugir. Os tímidos lábios de Márcia pareciam ter sido banhados no mel. Seu beijo era doce e extremamente carinhoso. Foram três minutos que pareceram uma eternidade. Minh’alma viajou pelo cosmos de mãos dadas com a alma de Márcia. Conseguia sentir o bater do coração de Márcia como se o seu coração estivesse em mim. Entreolhamos-nos sem verter uma palavra. Consegui romper um silêncio com um comentário que, para um garoto de nove anos caiu muito bem:

- Adorei essa salada mista.

Ela mal conseguia olhar nos meus olhos. Estava tímida ou arrependida? Não conseguia discernir a emoção que Márcia transparecia. Esperei mais uns segundos para ver se haveria alguma reação e perguntei:

- Você não gostou?

- Gostei. Muito! Estou com vergonha.

- Mas não precisa ter vergonha – falei aproximando-me dela em um afago carinhoso – só tem nós dois aqui e eu não vou contar isso pra ninguém.

- Eu sei, é porque é a primeira vez que eu beijo alguém. Eu queria beijar você no Domingo, mas não deu porque o culto acabou e tive que ir correndo. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão bom. Eu senti um arrepio muito grande e parece que eu estava desmaiada.

Eu fiquei absolutamente sem palavras. Nunca podia imaginar que poderia causar uma sensação dessas em uma mulher. Ela preencheu-me com um abraço novamente, dessa vez roubando um beijo. Foi um bis do momento anterior, só que dessa vez com mais intensidade.

Foram vários beijos que se repetiram intercalados em conversas sobre família, religião e amigos. Nunca havia ficado tanto tempo amando uma mulher como naquele dia. Mais um marco sentimental foi cravado na minha mente e escrito na tábua de emoções do meu coração.

28
Dez
07

vestígios de cafajeste

Mal coloquei os pés em casa e minha mãe já havia iniciado aquele sermão.

- Getúlio. Eu já te falei que eu detesto rebeldia. Você tinha que levantar na hora que nós levantamos.

- Pra quê? Eu não queria ir pra igreja.

- Mas você não tem que querer! Você é meu filho e vai pra onde eu for.

Certamente não tinha discussão com uma afirmação dessas. O que mais eu poderia falar? Que não iria e tomar uma bifa no pé da orelha? Eu decidi ficar calado, até porque eu já tinha arrumado motivos de sobra para continuar indo à igreja, apesar de meus objetivos discordarem totalmente dos de meus pais. Eu iria continuar. Mas uma coisa me sobreveio repentinamente. Por que eu tinha que ir à igreja se não tinha vontade de ir? Falavam de céu, de inferno, de diabo e coisas do gênero. Serviam-me para colocar medo, mas nunca para me impor a necessidade de estar presente num templo religioso. Eu sabia o que era Deus, sabia o que era o correto e o errado. Esses conceitos de certo e errado, bem e mal já estavam gravados no meu consciente de forma inexplicável até então. Mas ainda era cedo demais para que eu pudesse compreender uma coisa tão complexa. É impressionante a maneira como as pessoas conseguem tornar complicadas coisas simples. E como eu estava acostumado com a simplicidade, não era o meu tempo de compreender.

***

Era uma segunda-feira. O sol se fazia visível entre as montanhas que foram erguidas potentes na vista do portão de minha casa. Era por volta de 11:30 e ainda com os olhos inchados de tanto dormir, cheguei na cozinha e lá estava minha mãe em seus a fazeres domésticos. Sempre presente nunca nos deixou um diz se quer sem as suas deliciosas guloseimas.

- Mãe, quando vamos à igreja de novo?

Com um ar de surpresa e satisfação, minha mãe deixou cair a colher de pau que amaciava uma panela de arroz sobre o fogão. Impressionada com uma indagação tão incomum. Característica pouco comum para um garoto que não conseguia verter uma palavra até a hora do almoço, replicou:

- O quê Getúlio? Você quer saber quando vamos à igreja de novo?

- É sim mãe. Quando? Só domingo?

- A gente pode ir amanhã, tem culto. Já sei! Você vai querer ir amanhã para não ter que ir domingo? Saiba Gê, que eu não vou dispensar você aos domingos!

- Não mãe. Eu vou amanhã e domingo também.

Conseguia ver plainando sobre a cabeça da minha querida mãe diversas interrogações de vários tamanhos e formatos. Sem entender absolutamente nada, voltou a conversar com o fogão em estado meditativo mexendo a panela de ensopado de carne seca com chuchu.

Sentei-me à mesa em meu estado comum de introspecção pela manhã e tomei meu café com quase um pão de sal do tipo bisnaga inteirinho. Ao final do meu café quase almoço, tomei um banho, vesti-me e fui para o colégio esperando ansiosamente pelo dia seguinte onde esperava realizar um feito ainda incompleto do dia anterior. Márcia já ocupava os meus pensamentos.

26
Dez
07

uma nova igreja

Ficamos bastante tempo na igreja da coxinha de frango. Como eu era muito jovem e não tinha muito interesse pela vida religiosa, não existiu nada que fixasse em minha jovem mente fatos relevantes. O tempo passou, e para início de uma jornada, a igreja também passou. Estava na hora de iniciar uma nova fase na vida. Uma fase de novas descobertas religiosas e amorosas.

Era uma tarde de um domingo de verão, eu estava na rua jogando bola com meus amigos, como era usual. Eu estava prestes a fazer um gol, coisa realmente muito difícil de acontecer, quando ouvi a voz autoritária de meu pai chamando no portão de casa:

- Getúlio!

Era engraçado como eu lidava com o meu pai. O fato de ele ser militar realmente impunha um respeito inexplicável. Eu não esperava que ele chamasse a segunda vez. Sabia que ele não gostava de repetir nada. Como todo militar, gostava de falar uma vez só e que tudo saísse perfeito. Eu sempre me esforçava para fazer tudo como ele gostava, embora nem sempre eu conseguisse.

Eu não esperei para ver se a bola tinha atravessado as traves de chinelo que fazíamos no meio da rua para demarcar o gol. Inusitadamente chutei a bola e fui de encontro ao meu pai.

- Filho, tá na hora de você se arrumar para ir à igreja.

- Mas pai, to jogando bola com meus amigos. Não quero ir pra igreja.

- Você precisa ir à igreja, já conversei com você sobre isso. Você num come, bebe, estuda e brinca todos os dias? Qual o problema de você agradecer a Deus tudo o que você tem em um dia na semana durante uma hora e meia?

- Eu não preciso ir pra igreja pra agradecer a Deus pai, eu já agradeço todos os dias quando eu oro antes de dormir. Por que eu preciso ir à igreja só pra fazer isso?

- Getúlio, não vou mais discutir com você. Vai tomar banho e se arrumar. Estou te esperando.
Saí pisando forte por estar contrariado. Sabia que se eu continuasse discutindo poderiam sobrar umas boas lições pra mim, preferi não arriscar.

Essa era a segunda igreja que íamos desde que deixamos de ir à igreja da coxinha de frango. Eu adorava o intervalo em que ficavam desgarrados sem estar indo em nenhuma igreja, porque eu não precisava interromper a minha pelada com os meus amigos aos domingos. Mas infelizmente o período religioso de meus pais tinha voltado e tive que me preparar para agradecer a Deus pelas coisas que eu desfrutava.

A igreja ficava próxima da minha casa. Era bastante famosa, mas tinha uma fama horrível de incomodar a vizinhança. Os líderes daquela igreja, em uma sala de seis metros quadrados usavam microfones com um alto-falante potentíssimo para falar para meia dúzia de cabeças, quando na verdade a própria voz natural, sem qualquer recurso eletrônico, já seria o suficiente para se fazer ouvir no meio daqueles pobres coitados que davam quase tudo o que tinham para garantir o lugarzinho deles no céu.

Chegamos à igreja e como de usual eles notaram as carinhas novas. Sempre que eles notavam alguém diferente, faziam um belíssimo discurso sobre os visitantes, cantavam musiquinhas especiais e faziam a famosa pergunta: “Você aceita Jesus Cristo como seu Salvador?” e seguia-se da seguinte condição: “Se você o aceita como seu Salvador, levante-se e ponha as mãos para cima!” Eu achava aquilo um tremendo de um papelão. Meus pais o fizeram e me catucaram para levantar. Eu não levantei, sabia que isso ia gerar um tremendo de um esporro quando eu chegasse casa, mas não me levantei. Meus pais ficaram sem graça na frente daqueles irmãos quando viram que seu filho rebelde ficou sentado no banco com aquela cara amarrada e de braços cruzados. Tomei um beliscão da minha mãe e levantei de dor passando a mão sobre o meu braço para passar aquela dor desgraçada que queimava o meu braço que ficou vermelho na hora. O povo começou a exclamar “Aleluia!” e o pastor finalizou seu discurso hipnotizante para assegurar mais alguns pagadores de seu salário:

- Irmãos, mais uma família se converte e conhece Jesus Cristo! Agora estes irmãos serão parte de nossa igreja.
Falei com meu pai que iria beber água e ir ao banheiro, mas na verdade eu ia para o estacionamento porque não agüentava ficar em um lugar contra a minha vontade. Chegando ao estacionamento eu vi que tinha algumas outras crianças igualmente entediadas por estarem ali. Engraçado a cara de insatisfação e o tédio estampado no semblante daqueles pobres seres, questionava-me se também tinha aquela fisionomia horrenda.

- Oi, qual é seu nome? – Perguntou solícita uma menina baixinha, um pouquinho acima do peso, porém nada muito extravagante, era a famosa fofinha.

- Getúlio – respondi entediado e completei – vocês não vão lá pra dentro?

- Não prefirimos ficar por aqui brincando. Quando o culto tiver acabando a gente vai lá pra dentro. Meu nome é Márcia, ele é o João e ela é a Maria, minha irmã.

João era quieto, parecia mais tímido que eu. Baixo, negro e muito bem vestido. Maria estava com uma saia enorme, ia até o pé, parecia envergonhada de estar vestindo uma roupa daquelas que normalmente as mulheres mais velhas costumam utilizar. Ela era bem branquinha de cabelos cacheados e olhos castanhos claro. Era mais magra que Márcia, porém menos apessoada. Aproximei-me de Márcia e perguntei curioso:

- O que vocês faziam antes de eu chegar?

- Brincávamos de salada mista – tomou a palavra Maria ocupando sua posição de irmã mais velha.

- Mas dentro da igreja? – Perguntei meio que pasmo por tal ‘heresia’

- Que que tem? Quer brincar também?

- É que eu nunca havia brincado disso, só ouvia minhas primas conversando e falando que era de beijar na boca.

- É simples – respondeu Márcia – A gente te explica.

- Mas eu não quero beijar na boca de homem não!
Todos começaram a rir. Era a primeira interação de João na conversa. Ele aproveitou e começou a explicar:

- Não Getúlio. Você não vai beijar na boca de homem. Nem eu quero isso! É simples. Uma pessoa vai estar de fora, outras vão estar sentadas e você, por exemplo, vai ficar de olhos tampados. A pessoa de fora irá tampar. Enquanto você está de olhos fechados, as pessoas que estão sentadas vão mudar de lugar e você não deverá saber onde elas estão. A pessoa que estiver tampando teu olho vai mexer na tua mão apontando para cada uma das pessoas e perguntando se é essa a pessoa que você escolhe. Se você disser sim, o que está tampando seus olhos vai perguntar que opção você escolhe: pêra, uva, maça ou salada mista. Pêra é um aperto de mão, uva é um abraço, maça é beijo no rosto e salada mista é um beijinho na boca. – explicou-me magistralmente soltando um sorriso sorrateiro no final, como se ele sempre trapaceasse.

Ficou claro pra mim que alguma coisa estava por trás daquela brincadeira. Duas garotas lindas e um garoto esperto! Eu decidi participar da brincadeira. O primeiro a tampar os olhos foi o João. Maria seria a pessoa que iria escolher. Márcia e eu ficamos sentados. Maria havia me escolhido. Tomei um susto e fiquei ansioso pra saber que opção ela iria escolher. Maçã!
João abriu os olhos de Maria e ela se surpreendeu. Parece que era exatamente isso que ela queria. Chegou perto de mim e me tascou um beijão no rosto! Márcia e João soltaram em uníssono um “hummm” como se alguma coisa tivesse além da brincadeira. Na hora eu comecei a ficar com vergonha e querer parar a brincadeira antes que algo mais sério ocorresse. Mas não. João falou:

- Agora Getúlio, você quem vai escolher e a Maria quem vai tampar seus olhos.

- Tudo bem.

Fui andando para o lugar dele, e ele sentou no banco ao lado de Márcia. Trocaram de lugar e deu pra notar que Márcia ficou no mesmo lugar. Estava começando a gostar da brincadeira, já tinha pegado a manha. Maria conduziu a minha mão no primeiro movimento e perguntou:

- É esse?

- É – falei imediatamente, sabia que estava apontada para Márcia.

- Pêra, uva, maça ou salada mista?

Fiquei alguns segundos sem saber o que responder. Fiquei com muita vergonha de falar o que eu queria. Ouvia os risos guardados entre as mãos que tampavam as bocas para não deixarem escapar. Márcia perguntou mais uma vez com um ar de sorriso:

- Pêra, uva, maça ou salada mista, Getúlio?

- Salada Mista – Respondi entre os dentes.

- O quê? Fala mais alto! – quase gritando João exclamou.

- Salada Mista!

Maria tirou as mãos de meus olhos e começou a rir. Deu para notar a timidez invadir o semblante de Márcia. Cheguei bem pertinho dela e ela se levantou. Olhei nos olhos dela, notei certa vontade de completar o movimento, mas certamente alguém falou para ela que sempre deixasse o homem tomar a iniciativa. Eu já sabia disso, as conversas de minhas primas sempre me serviam de algo. Olhei nos olhos dela e perguntei:

- Pronto?

- Sim – respondeu baixinho olhando pro chão.

De repente ouve-se sonoro “Amém!” que vinha de dentro da igreja. Eu olhei pra trás e Maria ordenou Márcia que entrasse, parece que tinham uma regra estabelecida entre elas e seus pais. Vi a preocupação pairar no ar das duas meninas e só as vi correndo para dentro da igreja. Não consegui entender direito o que havia ocorrido, mas João interrompeu meu silêncio:

- O pai delas falou que sempre antes de terminar o culto, elas devem entrar pra igreja para que a benção apostólica possa ser passada para elas. Só que parece que elas já perderam.

- O que é benção apostólica?

- São as palavras que o pastor fala no final do culto antes de as pessoas saírem da igreja. É como se fosse um pai abençoando um filho.

- Entendi. Elas vêm todos os dias de culto?

- Vêm sim. Só eu que só venho aos domingos.

- Ah sim. Então até domingo. Eu vou ter que ir, meus pais já deve estar me procurando.

- Tchau Getúlio!

Fui andando e pensando na salada mista que não havia se misturado. Estava começando a gostar daquela igreja.

23
Dez
07

vida religiosa

Depois da partida de Luzinha fiquei totalmente desolado. O mundo parecia ter perdido o sentido. Fiquei por vários dias pensando nos momentos que surgiram na nossa vida. Mas o tempo passou, e não há melhor remédio para certas saudades que o tempo, afinal de contas, eu era só uma criança e precisava continuar vivendo. Nos meus mal formados nove anos de idade, eu já tinha consciência de algumas coisas. Umas aprendidas sozinhas e outras ensinadas por meus pais. E uma das coisas que meus pais sempre me ensinaram foi a ser sempre grato a Deus por todas as coisas que aconteciam na minha vida, fossem elas boas ou más.

Assim que eu me entendi por gente, eu já ia à igreja regularmente com minha mãe. Era engraçado! Toda vez que eu ia à igrejaa, ficava olhando aqueles homens tocando violão, guitarra, bateria, instrumentos de sopro. Ficava hipnotizado e às vezes ia lá pra frente para ficar mexendo no instrumento deles. Sempre tive interesse por música, esse dom já nasceu comigo, trago-o de outras vidas, certamente.

Eu sempre fui obrigado a ir à igreja. E apesar de ser obediente aos meus pais, nunca gostei dessa obrigação. Eu sempre queria ficar em casa, fazendo outras coisas, pois achava chato demais ficar lá sentado sem entender absolutamente uma palavra do que o pastor falava e no final sair de lá como se alguma coisa maravilhosa tivesse acontecido. Eu não suportava. E de esperto que eu era, sempre fazia uma chantagem básica. Falava para a minha mãe que eu iria à igreja e me comportaria se, e somente se, ela comprasse duas coxinhas de frango. Eu sempre ganhava. As coxinhas de frango eram bem gorduchas, com bastante óleo. Tinha tanta gordura que aquele papel que o rapaz da lanchonete usava para envolver a coxinha ficava transparente de tanto óleo que era absorvido. Quão saudável eu era! Apesar de tudo, eu sempre estava lá.

***

19
Dez
07

Feliz Aniversário!

Aconteceu uma coisa curiosa após alguns dias. Eu não parava de pensar na Luzinha. Eu queria beijá-la novamente. Dessa vez eu queria estar mais consciente, queria estar mais presente no momento, abraçá-la, senti-la nos meus braços de menino. O tempo foi passando e a lembrança ao invés de diminuir e se escassear nos braços do tempo, firmava-se cada vez mais como se o pensamento fosse consciente de si próprio e gritava ao meu ser para encontrá-la novamente. O encontro foi realizado, graças a Deus!

Passadas algumas semanas, sem tirar aquela cena que ficava cem por cento do tempo na minha mente que não era mais tão inocente assim, eu completaria oito anos de idade, um frangote. Minha mãe já preparara minha festinha de aniversário e convidara as pessoas mais próximas. Lembro-me vagamente dos amiguinhos que me homenagearam, contudo a única lembrança forte que ficou marcada foi a presença da Luzinha linda e exuberante. De cabelos soltos, uma saia rodada azul no meio das coxas e uma blusinha branquinha de botão. Parecia uma colegial do colégio Pedro II. Meus olhos não pararam de fitá-la desde o tempo que ela havia chegado ao salão de festas.

Minha mãe indagou-me vendo minha mente e meus olhares divagarem ao salão na direção da Luzinha:

- Filho, tá tudo bem? Tá gostando da festa?

- Tô sim mãe! Você chamou todos os meus colegas! Só que eu ganhei presente só do Tonico – soltei um sorriso amarelo como quem esperava mais.

Minha mãe aproveitou para reiterar o ensinamento que já havia me dado nos aniversários anteriores:

- Getúlio, já falei com você. O que vale é a presença dos teus amigos aqui com você. Mesmo que você ganhe uma meia, mostre-se interessado como se fosse exatamente o que você precisava.

- Tá bom mãe, mas esses moleques vêm pra minha festa come, bebe, brinca, ganha brinquedo no balão surpresa e não traz nem um brinquedo pra mim de presente! Isso que é amigo!

Minha mãe deixou soltar uma gargalhada que lhe era característica e deixou-me sozinho com a cara emburrada e chateado por não ter ganhado mais brinquedos.

Esse tempo que dispensei nessa breve conversa com minha mãe foi o suficiente para eu perder a Luzinha de vista. Fiquei desesperado! “Será que ela foi embora”, pensei comigo mesmo. Saí ao salão no meio do povo a procurá-la. Pessoas falavam comigo, eu falava rapidamente, porém continuava andando. Até que eu encontrei-a perto do banheiro do salão de festas e, adivinha! Ela estava sozinha. Mais uma vez senti-me como uma pamonha mau costurada, minhas pernas bambeando feito vara-verde e a Luzinha solta um leve e suave cumprimento:

- Oi!

- Oi – respondi tímido.

- Feliz Aniversário!

- Obrigado!

- Eu vou fazer aniversário em Novembro, você vai né?

- Vou sim… Eu não poderia perder, você é…

- Ah! Que bom! – interrompeu-me quando eu ia elogiá-la e falar do beijo que eu havia recebido dela.

- Adorei o presente que você me deu.

- Mas eu não te dei nenhum presente Gê! Minha mãe não teve tempo para comprar.

- Eu to falando do beijo que você me deu naquele dia. Eu não consigo parar de pensar nele.

No mesmo momento ela começou a ficar vermelha. Nunca tinha visto Luzinha tímida, parece que ficava mais linda do que era. Continuei:

- Será que você pode me dar outro beijo de aniversário?

- Mas aqui???

- A gente vai lá pros fundos do salão que não tem ninguém. Nem minha mãe nem a sua irão ver.

- Tá bom!

- Eu vou na frente e você vai atrás de mim, tá bom?

Luzinha maleou com a cabeça em sinal positivo e eu parti na frente. Passei pela cozinha do salão meio que despercebido no meio daquela gente ocupada e preocupada com as cervejas que estavam em cima do balcão fazendo aquele povo feliz. Luzinha, por ser menor que eu, passou mais despercebida ainda. Chegamos aos fundos do salão. Encostei-me em uma parede ao lado de um galão de chope. A luz do ambiente era muito precária e não dava nem para ver o rosto da Luzinha nitidamente. Os fundos do salão era a céu aberto. Era uma noite de lua e o céu estava bastante estrelado. Eu peguei-a pela cintura, puxei-a para mim e pude sentir um formigamento em todo o corpo, meus sentidos começaram a girar junto da sensação do toque da pele de Luzinha. Senti-a bem colada no meu corpo, totalmente entregue a mim. Devagar, sem jeito fui chegando meus lábios perto dos lábios de Luzinha que sinalizava um beijo de estalinho. Eu não fazia idéia de como começar. Encostamos os lábios. Um choque tomou o meu corpo e um frio foi tomando a minha espinha e subindo pelas costas. Foi a sensação de estar vagando na imensidão do espaço. Nossos lábios começaram naturalmente a se entreabrirem. As línguas tocaram-se inocentemente, sem nenhum esforço de ambas as partes. O choque ao chegar no topo de minhas costas, transformou-se em fogo. Abraçado com ela, com as mãos imóveis atrás das costas de Luzinha, sem realizar nenhum movimento além do movimento sensual de nossos lábios enamorados. Pude sentir o coração de Luzinha batendo muito forte, certamente ela sentiu o meu também. O beijo foi se amenizando, fomos parando de beijar um ao outro e ficamos só abraçados. Eu agarrei-a com força, abracei-a como se nunca mais fosse vê-la novamente. Ela se entregou no meu abraço. Pude sentir, pela primeira vez nessa vida, o que é o calor da paixão.

Largamo-nos do abraço e sem verter uma só palavra fomos caminhando com aquela cara de culpados pela cozinha do salão, juntos. Ninguém nos reparou. Chegamos ao centro do salão minha mãe me gritou de longe:

- Gê! Vem tirar foto! Venha também Luzinha.

Fomos ao encontro dela. A impressão que tivemos foi que ela tinha visto tudo o que tinha acontecido. Chegamos perto dela sem falar absolutamente nada. Minha mãe perguntou:

- Onde vocês estavam?

- A gente? é.. a gente tava…

- A gente tava lá fora tia. Brincando com os garotos… – respondeu rapidamente Luzinha.

- Tá bom – replicou minha mãe – mas não fica lá fora que é perigoso. Já está tarde. Agora, vocês dois, fiquem ali, vamos tirar uma foto de vocês.

Ficamos no lugar indicado pela minha mãe, separados um do outro, quase um metro de distância. Parece que a nossa timidez era mais por medo de descobrirem alguma coisa do que propriametne de tirarmos fotos juntos. Eu já era tímido de natureza, minha mãe bem sabia. Talvez por isso não tenha notado nada além no nosso comportamento.

- Fiquem mais perto! Vocês estão muito longes um do outro. Fiquem pertinho um do outro, como se fossem namorados – brincou minha mãe sorrindo.

Imediatamente fiquei vermelho, senti meu rosto pelar como uma chama de fogo ardente. Luzinha soltou um sorriso amarelo entre os dentes. Aproximamo-nos.

- Já tá bom mãe, tira logo essa foto!

- Não Gê. Essa foto vai ficar guardada pra recordação. Quando você ficar grandinho, vai ver essa foto e vai te trazer muitas lembranças. Dêem as mãos!

Minha mãe pareceu ler o íntimo dos meus sentimentos. Penetrou meu pensamento como o sol penetra uma janela de vidro. Mal sabia ela que aquela festa de aniversário seria a melhor festa de aniversário que já me ocorreu até o presente momento.

Damos as mãos e olhamos para frente.

- Pronto mãe, pode tirar.

- Olha o passarinho!

***

Essa foto ficou guardada até hoje. Estou vendo-a agora neste momento. Realmente, lembranças maravilhosas são rememoradas por mim neste momento. As lembranças ficaram mas Luzinha partiu para longe. Dois meses depois, Luzinha e sua família se mudaram para outra cidade próxima de onde eu morava. Neste período tivemos mais uns dois encontros tão bons quanto o do meu aniversário. Falávamos que iríamos ser namorados para sempre, coisa de criança. Mas não foi bem assim o plano do destino. O destino já havia traçado um rumo nas nossas vidas. Luzinha seria a primeira mulher na minha vida. A primeira a fazer-me sentir o que é o fogo da paixão na sua concepção mais pura.

***

16
Dez
07

Momento mágico

Em uma das visitas da Dª Marta, mãe de Luzinha, ao salão de minha mãe, como de praxe, Luzinha foi junto e dessa vez mais extrovertida do que das outras vezes. Eu não sei o que houve com ela, mas estava muito mais amiga e mais próxima de mim do que os demais dias. Nesse dia pude ter certeza que haveria de acontecer alguma coisa mágica:

- Gê, você tá fazendo o que?

- Nada Luzinha. Só estou vendo minha mãe cortar o cabelo da sua mãe. Por quê?

- Vamos brincar?

- Claro! Você quer brincar de quê?

- Não sei. Você tem bonecos no seu quarto? A gente podia brincar de casinha e os seus bonecos podiam ser nossos filhos.

- Vamos então. É por aqui…

Claro que naquela época eu não tinha malícia nas conotações sexuais que tinham os termos “brincar de casinha”, “brincar de papai e mamãe”, “de médico” e coisas do tipo. Sem pestanejar aceitei o convite de Luzinha e fui correndo arrumar os brinquedos que ficavam jogados no chão. Chegamos ao quarto e perguntei:

- E agora Luzinha, o que a gente pode fazer? Você podia fazer a nossa comida pra jantar.

- É mesmo! Mas a gente não tem fogão nem panelas.

Fui imediatamente pegar umas duas panelas da minha mãe na cozinha e improvisamos um fogãozinho em cima dos travesseiros.

- Agora a gente tem uma cozinha. Você vai fazer a comida e eu vou trabalhar. Quando eu chegar do trabalho, a gente vai jantar, tá bom?

- Tá bom – replicou Luzinha já iniciando suas atividades domésticas.

Eu fui até o salão da minha mãe para ver como estavam as coisas por lá. Elas estavam muito entretidas conversando sobre diversas coisas que eu não fazia idéia, mas que prendia muito a atenção delas. Passaram-se aproximadamente três minutos e eu voltei já incorporado o personagem do “papai”.

- Oi amor, cheguei. O que temos pra nosso jantar? – Perguntei meio que sorrindo, com a timidez ainda tomando conta de minhas atitudes.

- Arroz, feijão e bife, amor – Respondeu Luzinha com um sorriso inocente querendo soltar uma gargalhada.

Apesar da brincadeira, o fato de ela ter me chamado de amor, quase me levou às nuvens. Eu me senti cada vez mais envolto pela brincadeira e perguntei, sentindo meu rosto travesso esquentando e ficando vermelho:

- Você não dá um beijo no marido quando ele chega?

De longe se fazia ouvir a voz de Dª Marta:

- Luzinha, vamos embora.

- Já vou mãe… – Imediatamente respondeu Luzinha – Já está na hora de eu ir Gê!

- Mas e o meu beijo? Se não deu de chegada, tem que ter um de despedida… – Respondi sorrateiro!

Ela olhou dentro dos meus olhos, de repente sua fisionomia mudou. Aproximou-se rapidamente de mim. Neste momento não sentia nada, fiquei totalmente teso, imóvel, meu coração batendo na boca. Minhas pernas tremiam como bambus em um vendaval. De repente, a única coisa que eu lembro, é ter sentido os lábios de uma menina nos meus. Luzinha havia me dado um beijo, um estalinho inocente e em seguida corria pela casa, gritando:

- Estou indo mamãe…

Fiquei absolutamente sem ação. Era a primeira vez que eu sentia o beijo de uma mulher. Mulher é mulher, pode ter sete ou setenta anos. E essa mulher foi a quem apertou a tecla “start” do meu coração fazendo-me entender que a relação homem e mulher tinha algo precioso que transcendia os meus entendimentos da época.

***

14
Dez
07

O início

Como tudo de gostoso que nos acontece durante a nossa existência, o princípio é o que levamos para o resto da vida. Esse primeiro momento pode até não ser o melhor de todos, mas é certamente o que será o mais importante para a nossa caminhada. É o momento que nos faz sentir envoltos nas novas sensações que acobertam o nosso coração, a nossa mente, que gravam num cantinho do nosso ser a doce lembrança que nos seguirá pelo resto dos dias. No amor então, esse é o que não será jamais esquecido. Comigo, então não poderia ser diferente.

Eu tinha meus sete anos, quase oito. Um garotinho branquelo, magricelo, briguento, tímido, introspectivo e bastante sensível. Nada conseguia extinguir a minha timidez, que até o final de minha adolescência me acompanhara. Cercado de primas lindas e de pais maravilhosos, tinha ao meu dispor uma educação que muitos invejavam. Meu pai Militar da Marinha, muito sério e bastante rígido, de forte personalidade, um bigode que impunha respeito e um olhar que se mostrava penetrante através de seus grandes óculos. Tinha uma barriga enorme que serviu-me de encosto quando, ainda em tenra idade, fazia-me adormecer com canções de ninar. Procurava me disciplinar como se eu fosse um de seus soldados. Embora com todo a austeridade de um militar padrão, sempre agraciava-me com seus sábios e amorosos conselhos. Por outro lado, minha mamãe exercendo a profissão de cabeleireira, era uma mulher doce, meiga e com um amor que hoje é extinto na devassa selva de interesses e egoísmo, fazia-me o menino mais privilegiado de toda a face terrestre por causa de tanto carinho e amor que dava para seu pequeno e único filho até então. Branca, de rosto com leves sardas, lábios finos que emoldurava seus sorrisos como uma pintura que todos gostariam de adquirir.

Naquele tempo, eu sempre me ajuntava com meus coleguinhas para jogar bola. Marquinhos, Tonico, Emerson, Jackson, entre outros. Todos reunidos naquela rua de pedras às vezes jogando bola, às vezes contando histórias de terror inventadas descaradamente e que todos nós acreditávamos e morríamos de medo. E claro, às vezes falávamos sobre mulheres. Mesmo muito pequeninos, sempre tinha no meio da brincadeira uma ou outra garotinha brincando com a gente. Minhas primas sempre eram assuntos da nossa rodinha, pois, cada uma mais linda que outra, chamava a atenção de todos que moravam naquela rua, fosse casado, solteiro ou divorciado, minhas priminhas tocavam fundo a libido daqueles que eram privilegiados com a visão de suas belezas inconfundíveis. Dentre as meninas que brincava com aquele bando de moleques de pés descalços e sem camisa, tinha uma menininha, Luzinha, como era chamada carinhosamente, loirinha de olhos verdes claros como a água do mar. Cabelos lisos e loiros decaídos sobre os ombros. Muito pequenina de bochechas rosadas e perninhas grossas. Era como a pedra preciosa da turminha. Todos tinham um cuidado enorme até mesmo para tocá-la. Era muito meiga e delicada. Uns nem ousavam tentar dirigir-lhe a palavra com o medo de serem ignorados. Hoje eu os entendo, a beleza dela era tanta que nos diminuíam como formigas. Uns, por outro lado, tentavam desesperadamente arrancar um beijo inocente, mas nunca tiveram sucesso. Eu então, só os pensamentos que envolviam a Luluzinha, já envermelhavam o meu rosto branco e meus olhos já não olhavam os dela com uma vergonha que me sugeriam correr e sair da frente daquela menina linda.

A mãe de Luzinha era freguesa de minha mãe que abria o salão todos os dias num espaço bem amplo da nossa casa. Sempre que a mãe de Luzinha ia cortar o cabelo com a minha mãe, Luzinha ia junto. Dos meninos eu sentia-me como um rei. Eu podia estar fazendo qualquer coisa na rua, brincando de seja lá o que fosse, quando Luzinha acompanhava sua mãe até o salão de minha mãe, eu largava tudo e ia para um lugarzinho do salão para ficar olhando a Luzinha pelo cantinho da janela que dava bem para o banco em que as pessoas esperavam a sua vez para serem atendidos pela minha mãe, onde Luzinha sempre esperava sua mamãe. Perdi a conta das vezes que me escondia todas as vezes que Luzinha olhava para a janela e eu abaixava para que ela não me visse e, logo em seguida, quando levantava, olhava-a rindo e aquela cena tomava-me com uma excitação que eu não podia controlar.

***

14
Dez
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Epílogo

Quantos anos se passaram desde que tive minha primeira paixão! Lembranças doces e outras nem tão doces assim. Apesar das poucas mulheres que partilhei momentos mágicos, cada uma delas teve um significado especial, um carinho diferente, uma forma diferente de amar, mesmo quando esse amor não foi realizado fisicamente.

Os grandes momentos desta vida foram melhores aproveitados quando estive ao lado de uma mulher. Ao lado de alguém que pudesse trocar carícias misturadas com beijos com gosto de mel. Esses momentos ainda perduram na minha lembrança e no meu coração, fazem-me sentir o ar fresco inflando meus pulmões como se eu fosse um balão movido a gás que toma as alturas dos céus que nem os pássaros alcançam.

Hoje sou um homem casado. Muito bem casado, diga-se de passagem. Ainda sem filhos. Curtindo cada momento que a minha amada, a minha princesa pode me oferecer no colo dos seus seios com carícias que me rememoram os de minha mãe. Ela quem foi escolhida para ficar toda a minha vida lado a lado e compartilhando alegrias, tristezas, sucessos e derrotas. Mas é ela. Sim, é ela que me faz feliz, que me faz sentir um homem realizado em todos os sentidos.

Vamos percorrer essa minha estrada de amores, encontros e desencontros. Sentindo a anatomia dos sentimentos de um homem que desde sua meninice deu mais valor à qualidade a quantidade. De um homem que preferiu um amor mais bem vivido do que um caso mal entendido.

Getúlio Moreira




 

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Sinopse

Getúlio Moreira, um homem que aos seus 8 anos de idade descobriu o que é se apaixonar. De personalidade tímida e bastante religioso, sua vida é cheia de boas aventuras amorosas e outras nem tão boas assim. Com todas as restrições de sua religião, conviveu em constante introspecção dividindo-se entre fé e paixão.

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