Arquivo para Dezembro 14th, 2007

14
Dez
07

O início

Como tudo de gostoso que nos acontece durante a nossa existência, o princípio é o que levamos para o resto da vida. Esse primeiro momento pode até não ser o melhor de todos, mas é certamente o que será o mais importante para a nossa caminhada. É o momento que nos faz sentir envoltos nas novas sensações que acobertam o nosso coração, a nossa mente, que gravam num cantinho do nosso ser a doce lembrança que nos seguirá pelo resto dos dias. No amor então, esse é o que não será jamais esquecido. Comigo, então não poderia ser diferente.

Eu tinha meus sete anos, quase oito. Um garotinho branquelo, magricelo, briguento, tímido, introspectivo e bastante sensível. Nada conseguia extinguir a minha timidez, que até o final de minha adolescência me acompanhara. Cercado de primas lindas e de pais maravilhosos, tinha ao meu dispor uma educação que muitos invejavam. Meu pai Militar da Marinha, muito sério e bastante rígido, de forte personalidade, um bigode que impunha respeito e um olhar que se mostrava penetrante através de seus grandes óculos. Tinha uma barriga enorme que serviu-me de encosto quando, ainda em tenra idade, fazia-me adormecer com canções de ninar. Procurava me disciplinar como se eu fosse um de seus soldados. Embora com todo a austeridade de um militar padrão, sempre agraciava-me com seus sábios e amorosos conselhos. Por outro lado, minha mamãe exercendo a profissão de cabeleireira, era uma mulher doce, meiga e com um amor que hoje é extinto na devassa selva de interesses e egoísmo, fazia-me o menino mais privilegiado de toda a face terrestre por causa de tanto carinho e amor que dava para seu pequeno e único filho até então. Branca, de rosto com leves sardas, lábios finos que emoldurava seus sorrisos como uma pintura que todos gostariam de adquirir.

Naquele tempo, eu sempre me ajuntava com meus coleguinhas para jogar bola. Marquinhos, Tonico, Emerson, Jackson, entre outros. Todos reunidos naquela rua de pedras às vezes jogando bola, às vezes contando histórias de terror inventadas descaradamente e que todos nós acreditávamos e morríamos de medo. E claro, às vezes falávamos sobre mulheres. Mesmo muito pequeninos, sempre tinha no meio da brincadeira uma ou outra garotinha brincando com a gente. Minhas primas sempre eram assuntos da nossa rodinha, pois, cada uma mais linda que outra, chamava a atenção de todos que moravam naquela rua, fosse casado, solteiro ou divorciado, minhas priminhas tocavam fundo a libido daqueles que eram privilegiados com a visão de suas belezas inconfundíveis. Dentre as meninas que brincava com aquele bando de moleques de pés descalços e sem camisa, tinha uma menininha, Luzinha, como era chamada carinhosamente, loirinha de olhos verdes claros como a água do mar. Cabelos lisos e loiros decaídos sobre os ombros. Muito pequenina de bochechas rosadas e perninhas grossas. Era como a pedra preciosa da turminha. Todos tinham um cuidado enorme até mesmo para tocá-la. Era muito meiga e delicada. Uns nem ousavam tentar dirigir-lhe a palavra com o medo de serem ignorados. Hoje eu os entendo, a beleza dela era tanta que nos diminuíam como formigas. Uns, por outro lado, tentavam desesperadamente arrancar um beijo inocente, mas nunca tiveram sucesso. Eu então, só os pensamentos que envolviam a Luluzinha, já envermelhavam o meu rosto branco e meus olhos já não olhavam os dela com uma vergonha que me sugeriam correr e sair da frente daquela menina linda.

A mãe de Luzinha era freguesa de minha mãe que abria o salão todos os dias num espaço bem amplo da nossa casa. Sempre que a mãe de Luzinha ia cortar o cabelo com a minha mãe, Luzinha ia junto. Dos meninos eu sentia-me como um rei. Eu podia estar fazendo qualquer coisa na rua, brincando de seja lá o que fosse, quando Luzinha acompanhava sua mãe até o salão de minha mãe, eu largava tudo e ia para um lugarzinho do salão para ficar olhando a Luzinha pelo cantinho da janela que dava bem para o banco em que as pessoas esperavam a sua vez para serem atendidos pela minha mãe, onde Luzinha sempre esperava sua mamãe. Perdi a conta das vezes que me escondia todas as vezes que Luzinha olhava para a janela e eu abaixava para que ela não me visse e, logo em seguida, quando levantava, olhava-a rindo e aquela cena tomava-me com uma excitação que eu não podia controlar.

***

14
Dez
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Epílogo

Quantos anos se passaram desde que tive minha primeira paixão! Lembranças doces e outras nem tão doces assim. Apesar das poucas mulheres que partilhei momentos mágicos, cada uma delas teve um significado especial, um carinho diferente, uma forma diferente de amar, mesmo quando esse amor não foi realizado fisicamente.

Os grandes momentos desta vida foram melhores aproveitados quando estive ao lado de uma mulher. Ao lado de alguém que pudesse trocar carícias misturadas com beijos com gosto de mel. Esses momentos ainda perduram na minha lembrança e no meu coração, fazem-me sentir o ar fresco inflando meus pulmões como se eu fosse um balão movido a gás que toma as alturas dos céus que nem os pássaros alcançam.

Hoje sou um homem casado. Muito bem casado, diga-se de passagem. Ainda sem filhos. Curtindo cada momento que a minha amada, a minha princesa pode me oferecer no colo dos seus seios com carícias que me rememoram os de minha mãe. Ela quem foi escolhida para ficar toda a minha vida lado a lado e compartilhando alegrias, tristezas, sucessos e derrotas. Mas é ela. Sim, é ela que me faz feliz, que me faz sentir um homem realizado em todos os sentidos.

Vamos percorrer essa minha estrada de amores, encontros e desencontros. Sentindo a anatomia dos sentimentos de um homem que desde sua meninice deu mais valor à qualidade a quantidade. De um homem que preferiu um amor mais bem vivido do que um caso mal entendido.

Getúlio Moreira




 

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Sinopse

Getúlio Moreira, um homem que aos seus 8 anos de idade descobriu o que é se apaixonar. De personalidade tímida e bastante religioso, sua vida é cheia de boas aventuras amorosas e outras nem tão boas assim. Com todas as restrições de sua religião, conviveu em constante introspecção dividindo-se entre fé e paixão.

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