Em uma das visitas da Dª Marta, mãe de Luzinha, ao salão de minha mãe, como de praxe, Luzinha foi junto e dessa vez mais extrovertida do que das outras vezes. Eu não sei o que houve com ela, mas estava muito mais amiga e mais próxima de mim do que os demais dias. Nesse dia pude ter certeza que haveria de acontecer alguma coisa mágica:
- Gê, você tá fazendo o que?
- Nada Luzinha. Só estou vendo minha mãe cortar o cabelo da sua mãe. Por quê?
- Vamos brincar?
- Claro! Você quer brincar de quê?
- Não sei. Você tem bonecos no seu quarto? A gente podia brincar de casinha e os seus bonecos podiam ser nossos filhos.
- Vamos então. É por aqui…
Claro que naquela época eu não tinha malícia nas conotações sexuais que tinham os termos “brincar de casinha”, “brincar de papai e mamãe”, “de médico” e coisas do tipo. Sem pestanejar aceitei o convite de Luzinha e fui correndo arrumar os brinquedos que ficavam jogados no chão. Chegamos ao quarto e perguntei:
- E agora Luzinha, o que a gente pode fazer? Você podia fazer a nossa comida pra jantar.
- É mesmo! Mas a gente não tem fogão nem panelas.
Fui imediatamente pegar umas duas panelas da minha mãe na cozinha e improvisamos um fogãozinho em cima dos travesseiros.
- Agora a gente tem uma cozinha. Você vai fazer a comida e eu vou trabalhar. Quando eu chegar do trabalho, a gente vai jantar, tá bom?
- Tá bom – replicou Luzinha já iniciando suas atividades domésticas.
Eu fui até o salão da minha mãe para ver como estavam as coisas por lá. Elas estavam muito entretidas conversando sobre diversas coisas que eu não fazia idéia, mas que prendia muito a atenção delas. Passaram-se aproximadamente três minutos e eu voltei já incorporado o personagem do “papai”.
- Oi amor, cheguei. O que temos pra nosso jantar? – Perguntei meio que sorrindo, com a timidez ainda tomando conta de minhas atitudes.
- Arroz, feijão e bife, amor – Respondeu Luzinha com um sorriso inocente querendo soltar uma gargalhada.
Apesar da brincadeira, o fato de ela ter me chamado de amor, quase me levou às nuvens. Eu me senti cada vez mais envolto pela brincadeira e perguntei, sentindo meu rosto travesso esquentando e ficando vermelho:
- Você não dá um beijo no marido quando ele chega?
De longe se fazia ouvir a voz de Dª Marta:
- Luzinha, vamos embora.
- Já vou mãe… – Imediatamente respondeu Luzinha – Já está na hora de eu ir Gê!
- Mas e o meu beijo? Se não deu de chegada, tem que ter um de despedida… – Respondi sorrateiro!
Ela olhou dentro dos meus olhos, de repente sua fisionomia mudou. Aproximou-se rapidamente de mim. Neste momento não sentia nada, fiquei totalmente teso, imóvel, meu coração batendo na boca. Minhas pernas tremiam como bambus em um vendaval. De repente, a única coisa que eu lembro, é ter sentido os lábios de uma menina nos meus. Luzinha havia me dado um beijo, um estalinho inocente e em seguida corria pela casa, gritando:
- Estou indo mamãe…
Fiquei absolutamente sem ação. Era a primeira vez que eu sentia o beijo de uma mulher. Mulher é mulher, pode ter sete ou setenta anos. E essa mulher foi a quem apertou a tecla “start” do meu coração fazendo-me entender que a relação homem e mulher tinha algo precioso que transcendia os meus entendimentos da época.
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