Arquivo para Dezembro 19th, 2007

19
Dez
07

Feliz Aniversário!

Aconteceu uma coisa curiosa após alguns dias. Eu não parava de pensar na Luzinha. Eu queria beijá-la novamente. Dessa vez eu queria estar mais consciente, queria estar mais presente no momento, abraçá-la, senti-la nos meus braços de menino. O tempo foi passando e a lembrança ao invés de diminuir e se escassear nos braços do tempo, firmava-se cada vez mais como se o pensamento fosse consciente de si próprio e gritava ao meu ser para encontrá-la novamente. O encontro foi realizado, graças a Deus!

Passadas algumas semanas, sem tirar aquela cena que ficava cem por cento do tempo na minha mente que não era mais tão inocente assim, eu completaria oito anos de idade, um frangote. Minha mãe já preparara minha festinha de aniversário e convidara as pessoas mais próximas. Lembro-me vagamente dos amiguinhos que me homenagearam, contudo a única lembrança forte que ficou marcada foi a presença da Luzinha linda e exuberante. De cabelos soltos, uma saia rodada azul no meio das coxas e uma blusinha branquinha de botão. Parecia uma colegial do colégio Pedro II. Meus olhos não pararam de fitá-la desde o tempo que ela havia chegado ao salão de festas.

Minha mãe indagou-me vendo minha mente e meus olhares divagarem ao salão na direção da Luzinha:

- Filho, tá tudo bem? Tá gostando da festa?

- Tô sim mãe! Você chamou todos os meus colegas! Só que eu ganhei presente só do Tonico – soltei um sorriso amarelo como quem esperava mais.

Minha mãe aproveitou para reiterar o ensinamento que já havia me dado nos aniversários anteriores:

- Getúlio, já falei com você. O que vale é a presença dos teus amigos aqui com você. Mesmo que você ganhe uma meia, mostre-se interessado como se fosse exatamente o que você precisava.

- Tá bom mãe, mas esses moleques vêm pra minha festa come, bebe, brinca, ganha brinquedo no balão surpresa e não traz nem um brinquedo pra mim de presente! Isso que é amigo!

Minha mãe deixou soltar uma gargalhada que lhe era característica e deixou-me sozinho com a cara emburrada e chateado por não ter ganhado mais brinquedos.

Esse tempo que dispensei nessa breve conversa com minha mãe foi o suficiente para eu perder a Luzinha de vista. Fiquei desesperado! “Será que ela foi embora”, pensei comigo mesmo. Saí ao salão no meio do povo a procurá-la. Pessoas falavam comigo, eu falava rapidamente, porém continuava andando. Até que eu encontrei-a perto do banheiro do salão de festas e, adivinha! Ela estava sozinha. Mais uma vez senti-me como uma pamonha mau costurada, minhas pernas bambeando feito vara-verde e a Luzinha solta um leve e suave cumprimento:

- Oi!

- Oi – respondi tímido.

- Feliz Aniversário!

- Obrigado!

- Eu vou fazer aniversário em Novembro, você vai né?

- Vou sim… Eu não poderia perder, você é…

- Ah! Que bom! – interrompeu-me quando eu ia elogiá-la e falar do beijo que eu havia recebido dela.

- Adorei o presente que você me deu.

- Mas eu não te dei nenhum presente Gê! Minha mãe não teve tempo para comprar.

- Eu to falando do beijo que você me deu naquele dia. Eu não consigo parar de pensar nele.

No mesmo momento ela começou a ficar vermelha. Nunca tinha visto Luzinha tímida, parece que ficava mais linda do que era. Continuei:

- Será que você pode me dar outro beijo de aniversário?

- Mas aqui???

- A gente vai lá pros fundos do salão que não tem ninguém. Nem minha mãe nem a sua irão ver.

- Tá bom!

- Eu vou na frente e você vai atrás de mim, tá bom?

Luzinha maleou com a cabeça em sinal positivo e eu parti na frente. Passei pela cozinha do salão meio que despercebido no meio daquela gente ocupada e preocupada com as cervejas que estavam em cima do balcão fazendo aquele povo feliz. Luzinha, por ser menor que eu, passou mais despercebida ainda. Chegamos aos fundos do salão. Encostei-me em uma parede ao lado de um galão de chope. A luz do ambiente era muito precária e não dava nem para ver o rosto da Luzinha nitidamente. Os fundos do salão era a céu aberto. Era uma noite de lua e o céu estava bastante estrelado. Eu peguei-a pela cintura, puxei-a para mim e pude sentir um formigamento em todo o corpo, meus sentidos começaram a girar junto da sensação do toque da pele de Luzinha. Senti-a bem colada no meu corpo, totalmente entregue a mim. Devagar, sem jeito fui chegando meus lábios perto dos lábios de Luzinha que sinalizava um beijo de estalinho. Eu não fazia idéia de como começar. Encostamos os lábios. Um choque tomou o meu corpo e um frio foi tomando a minha espinha e subindo pelas costas. Foi a sensação de estar vagando na imensidão do espaço. Nossos lábios começaram naturalmente a se entreabrirem. As línguas tocaram-se inocentemente, sem nenhum esforço de ambas as partes. O choque ao chegar no topo de minhas costas, transformou-se em fogo. Abraçado com ela, com as mãos imóveis atrás das costas de Luzinha, sem realizar nenhum movimento além do movimento sensual de nossos lábios enamorados. Pude sentir o coração de Luzinha batendo muito forte, certamente ela sentiu o meu também. O beijo foi se amenizando, fomos parando de beijar um ao outro e ficamos só abraçados. Eu agarrei-a com força, abracei-a como se nunca mais fosse vê-la novamente. Ela se entregou no meu abraço. Pude sentir, pela primeira vez nessa vida, o que é o calor da paixão.

Largamo-nos do abraço e sem verter uma só palavra fomos caminhando com aquela cara de culpados pela cozinha do salão, juntos. Ninguém nos reparou. Chegamos ao centro do salão minha mãe me gritou de longe:

- Gê! Vem tirar foto! Venha também Luzinha.

Fomos ao encontro dela. A impressão que tivemos foi que ela tinha visto tudo o que tinha acontecido. Chegamos perto dela sem falar absolutamente nada. Minha mãe perguntou:

- Onde vocês estavam?

- A gente? é.. a gente tava…

- A gente tava lá fora tia. Brincando com os garotos… – respondeu rapidamente Luzinha.

- Tá bom – replicou minha mãe – mas não fica lá fora que é perigoso. Já está tarde. Agora, vocês dois, fiquem ali, vamos tirar uma foto de vocês.

Ficamos no lugar indicado pela minha mãe, separados um do outro, quase um metro de distância. Parece que a nossa timidez era mais por medo de descobrirem alguma coisa do que propriametne de tirarmos fotos juntos. Eu já era tímido de natureza, minha mãe bem sabia. Talvez por isso não tenha notado nada além no nosso comportamento.

- Fiquem mais perto! Vocês estão muito longes um do outro. Fiquem pertinho um do outro, como se fossem namorados – brincou minha mãe sorrindo.

Imediatamente fiquei vermelho, senti meu rosto pelar como uma chama de fogo ardente. Luzinha soltou um sorriso amarelo entre os dentes. Aproximamo-nos.

- Já tá bom mãe, tira logo essa foto!

- Não Gê. Essa foto vai ficar guardada pra recordação. Quando você ficar grandinho, vai ver essa foto e vai te trazer muitas lembranças. Dêem as mãos!

Minha mãe pareceu ler o íntimo dos meus sentimentos. Penetrou meu pensamento como o sol penetra uma janela de vidro. Mal sabia ela que aquela festa de aniversário seria a melhor festa de aniversário que já me ocorreu até o presente momento.

Damos as mãos e olhamos para frente.

- Pronto mãe, pode tirar.

- Olha o passarinho!

***

Essa foto ficou guardada até hoje. Estou vendo-a agora neste momento. Realmente, lembranças maravilhosas são rememoradas por mim neste momento. As lembranças ficaram mas Luzinha partiu para longe. Dois meses depois, Luzinha e sua família se mudaram para outra cidade próxima de onde eu morava. Neste período tivemos mais uns dois encontros tão bons quanto o do meu aniversário. Falávamos que iríamos ser namorados para sempre, coisa de criança. Mas não foi bem assim o plano do destino. O destino já havia traçado um rumo nas nossas vidas. Luzinha seria a primeira mulher na minha vida. A primeira a fazer-me sentir o que é o fogo da paixão na sua concepção mais pura.

***




 

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Sinopse

Getúlio Moreira, um homem que aos seus 8 anos de idade descobriu o que é se apaixonar. De personalidade tímida e bastante religioso, sua vida é cheia de boas aventuras amorosas e outras nem tão boas assim. Com todas as restrições de sua religião, conviveu em constante introspecção dividindo-se entre fé e paixão.

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