26
Dez
07

uma nova igreja

Ficamos bastante tempo na igreja da coxinha de frango. Como eu era muito jovem e não tinha muito interesse pela vida religiosa, não existiu nada que fixasse em minha jovem mente fatos relevantes. O tempo passou, e para início de uma jornada, a igreja também passou. Estava na hora de iniciar uma nova fase na vida. Uma fase de novas descobertas religiosas e amorosas.

Era uma tarde de um domingo de verão, eu estava na rua jogando bola com meus amigos, como era usual. Eu estava prestes a fazer um gol, coisa realmente muito difícil de acontecer, quando ouvi a voz autoritária de meu pai chamando no portão de casa:

- Getúlio!

Era engraçado como eu lidava com o meu pai. O fato de ele ser militar realmente impunha um respeito inexplicável. Eu não esperava que ele chamasse a segunda vez. Sabia que ele não gostava de repetir nada. Como todo militar, gostava de falar uma vez só e que tudo saísse perfeito. Eu sempre me esforçava para fazer tudo como ele gostava, embora nem sempre eu conseguisse.

Eu não esperei para ver se a bola tinha atravessado as traves de chinelo que fazíamos no meio da rua para demarcar o gol. Inusitadamente chutei a bola e fui de encontro ao meu pai.

- Filho, tá na hora de você se arrumar para ir à igreja.

- Mas pai, to jogando bola com meus amigos. Não quero ir pra igreja.

- Você precisa ir à igreja, já conversei com você sobre isso. Você num come, bebe, estuda e brinca todos os dias? Qual o problema de você agradecer a Deus tudo o que você tem em um dia na semana durante uma hora e meia?

- Eu não preciso ir pra igreja pra agradecer a Deus pai, eu já agradeço todos os dias quando eu oro antes de dormir. Por que eu preciso ir à igreja só pra fazer isso?

- Getúlio, não vou mais discutir com você. Vai tomar banho e se arrumar. Estou te esperando.
Saí pisando forte por estar contrariado. Sabia que se eu continuasse discutindo poderiam sobrar umas boas lições pra mim, preferi não arriscar.

Essa era a segunda igreja que íamos desde que deixamos de ir à igreja da coxinha de frango. Eu adorava o intervalo em que ficavam desgarrados sem estar indo em nenhuma igreja, porque eu não precisava interromper a minha pelada com os meus amigos aos domingos. Mas infelizmente o período religioso de meus pais tinha voltado e tive que me preparar para agradecer a Deus pelas coisas que eu desfrutava.

A igreja ficava próxima da minha casa. Era bastante famosa, mas tinha uma fama horrível de incomodar a vizinhança. Os líderes daquela igreja, em uma sala de seis metros quadrados usavam microfones com um alto-falante potentíssimo para falar para meia dúzia de cabeças, quando na verdade a própria voz natural, sem qualquer recurso eletrônico, já seria o suficiente para se fazer ouvir no meio daqueles pobres coitados que davam quase tudo o que tinham para garantir o lugarzinho deles no céu.

Chegamos à igreja e como de usual eles notaram as carinhas novas. Sempre que eles notavam alguém diferente, faziam um belíssimo discurso sobre os visitantes, cantavam musiquinhas especiais e faziam a famosa pergunta: “Você aceita Jesus Cristo como seu Salvador?” e seguia-se da seguinte condição: “Se você o aceita como seu Salvador, levante-se e ponha as mãos para cima!” Eu achava aquilo um tremendo de um papelão. Meus pais o fizeram e me catucaram para levantar. Eu não levantei, sabia que isso ia gerar um tremendo de um esporro quando eu chegasse casa, mas não me levantei. Meus pais ficaram sem graça na frente daqueles irmãos quando viram que seu filho rebelde ficou sentado no banco com aquela cara amarrada e de braços cruzados. Tomei um beliscão da minha mãe e levantei de dor passando a mão sobre o meu braço para passar aquela dor desgraçada que queimava o meu braço que ficou vermelho na hora. O povo começou a exclamar “Aleluia!” e o pastor finalizou seu discurso hipnotizante para assegurar mais alguns pagadores de seu salário:

- Irmãos, mais uma família se converte e conhece Jesus Cristo! Agora estes irmãos serão parte de nossa igreja.
Falei com meu pai que iria beber água e ir ao banheiro, mas na verdade eu ia para o estacionamento porque não agüentava ficar em um lugar contra a minha vontade. Chegando ao estacionamento eu vi que tinha algumas outras crianças igualmente entediadas por estarem ali. Engraçado a cara de insatisfação e o tédio estampado no semblante daqueles pobres seres, questionava-me se também tinha aquela fisionomia horrenda.

- Oi, qual é seu nome? – Perguntou solícita uma menina baixinha, um pouquinho acima do peso, porém nada muito extravagante, era a famosa fofinha.

- Getúlio – respondi entediado e completei – vocês não vão lá pra dentro?

- Não prefirimos ficar por aqui brincando. Quando o culto tiver acabando a gente vai lá pra dentro. Meu nome é Márcia, ele é o João e ela é a Maria, minha irmã.

João era quieto, parecia mais tímido que eu. Baixo, negro e muito bem vestido. Maria estava com uma saia enorme, ia até o pé, parecia envergonhada de estar vestindo uma roupa daquelas que normalmente as mulheres mais velhas costumam utilizar. Ela era bem branquinha de cabelos cacheados e olhos castanhos claro. Era mais magra que Márcia, porém menos apessoada. Aproximei-me de Márcia e perguntei curioso:

- O que vocês faziam antes de eu chegar?

- Brincávamos de salada mista – tomou a palavra Maria ocupando sua posição de irmã mais velha.

- Mas dentro da igreja? – Perguntei meio que pasmo por tal ‘heresia’

- Que que tem? Quer brincar também?

- É que eu nunca havia brincado disso, só ouvia minhas primas conversando e falando que era de beijar na boca.

- É simples – respondeu Márcia – A gente te explica.

- Mas eu não quero beijar na boca de homem não!
Todos começaram a rir. Era a primeira interação de João na conversa. Ele aproveitou e começou a explicar:

- Não Getúlio. Você não vai beijar na boca de homem. Nem eu quero isso! É simples. Uma pessoa vai estar de fora, outras vão estar sentadas e você, por exemplo, vai ficar de olhos tampados. A pessoa de fora irá tampar. Enquanto você está de olhos fechados, as pessoas que estão sentadas vão mudar de lugar e você não deverá saber onde elas estão. A pessoa que estiver tampando teu olho vai mexer na tua mão apontando para cada uma das pessoas e perguntando se é essa a pessoa que você escolhe. Se você disser sim, o que está tampando seus olhos vai perguntar que opção você escolhe: pêra, uva, maça ou salada mista. Pêra é um aperto de mão, uva é um abraço, maça é beijo no rosto e salada mista é um beijinho na boca. – explicou-me magistralmente soltando um sorriso sorrateiro no final, como se ele sempre trapaceasse.

Ficou claro pra mim que alguma coisa estava por trás daquela brincadeira. Duas garotas lindas e um garoto esperto! Eu decidi participar da brincadeira. O primeiro a tampar os olhos foi o João. Maria seria a pessoa que iria escolher. Márcia e eu ficamos sentados. Maria havia me escolhido. Tomei um susto e fiquei ansioso pra saber que opção ela iria escolher. Maçã!
João abriu os olhos de Maria e ela se surpreendeu. Parece que era exatamente isso que ela queria. Chegou perto de mim e me tascou um beijão no rosto! Márcia e João soltaram em uníssono um “hummm” como se alguma coisa tivesse além da brincadeira. Na hora eu comecei a ficar com vergonha e querer parar a brincadeira antes que algo mais sério ocorresse. Mas não. João falou:

- Agora Getúlio, você quem vai escolher e a Maria quem vai tampar seus olhos.

- Tudo bem.

Fui andando para o lugar dele, e ele sentou no banco ao lado de Márcia. Trocaram de lugar e deu pra notar que Márcia ficou no mesmo lugar. Estava começando a gostar da brincadeira, já tinha pegado a manha. Maria conduziu a minha mão no primeiro movimento e perguntou:

- É esse?

- É – falei imediatamente, sabia que estava apontada para Márcia.

- Pêra, uva, maça ou salada mista?

Fiquei alguns segundos sem saber o que responder. Fiquei com muita vergonha de falar o que eu queria. Ouvia os risos guardados entre as mãos que tampavam as bocas para não deixarem escapar. Márcia perguntou mais uma vez com um ar de sorriso:

- Pêra, uva, maça ou salada mista, Getúlio?

- Salada Mista – Respondi entre os dentes.

- O quê? Fala mais alto! – quase gritando João exclamou.

- Salada Mista!

Maria tirou as mãos de meus olhos e começou a rir. Deu para notar a timidez invadir o semblante de Márcia. Cheguei bem pertinho dela e ela se levantou. Olhei nos olhos dela, notei certa vontade de completar o movimento, mas certamente alguém falou para ela que sempre deixasse o homem tomar a iniciativa. Eu já sabia disso, as conversas de minhas primas sempre me serviam de algo. Olhei nos olhos dela e perguntei:

- Pronto?

- Sim – respondeu baixinho olhando pro chão.

De repente ouve-se sonoro “Amém!” que vinha de dentro da igreja. Eu olhei pra trás e Maria ordenou Márcia que entrasse, parece que tinham uma regra estabelecida entre elas e seus pais. Vi a preocupação pairar no ar das duas meninas e só as vi correndo para dentro da igreja. Não consegui entender direito o que havia ocorrido, mas João interrompeu meu silêncio:

- O pai delas falou que sempre antes de terminar o culto, elas devem entrar pra igreja para que a benção apostólica possa ser passada para elas. Só que parece que elas já perderam.

- O que é benção apostólica?

- São as palavras que o pastor fala no final do culto antes de as pessoas saírem da igreja. É como se fosse um pai abençoando um filho.

- Entendi. Elas vêm todos os dias de culto?

- Vêm sim. Só eu que só venho aos domingos.

- Ah sim. Então até domingo. Eu vou ter que ir, meus pais já deve estar me procurando.

- Tchau Getúlio!

Fui andando e pensando na salada mista que não havia se misturado. Estava começando a gostar daquela igreja.


0 Respostas para “uma nova igreja”



  1. Sem comentários ainda

Deixe uma resposta




 

Dezembro 2007
D S T Q Q S S
    Jan »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Sinopse

Getúlio Moreira, um homem que aos seus 8 anos de idade descobriu o que é se apaixonar. De personalidade tímida e bastante religioso, sua vida é cheia de boas aventuras amorosas e outras nem tão boas assim. Com todas as restrições de sua religião, conviveu em constante introspecção dividindo-se entre fé e paixão.

Mais Lidos

  • Nenhuma

Literados

  • 578