Mal coloquei os pés em casa e minha mãe já havia iniciado aquele sermão.
- Getúlio. Eu já te falei que eu detesto rebeldia. Você tinha que levantar na hora que nós levantamos.
- Pra quê? Eu não queria ir pra igreja.
- Mas você não tem que querer! Você é meu filho e vai pra onde eu for.
Certamente não tinha discussão com uma afirmação dessas. O que mais eu poderia falar? Que não iria e tomar uma bifa no pé da orelha? Eu decidi ficar calado, até porque eu já tinha arrumado motivos de sobra para continuar indo à igreja, apesar de meus objetivos discordarem totalmente dos de meus pais. Eu iria continuar. Mas uma coisa me sobreveio repentinamente. Por que eu tinha que ir à igreja se não tinha vontade de ir? Falavam de céu, de inferno, de diabo e coisas do gênero. Serviam-me para colocar medo, mas nunca para me impor a necessidade de estar presente num templo religioso. Eu sabia o que era Deus, sabia o que era o correto e o errado. Esses conceitos de certo e errado, bem e mal já estavam gravados no meu consciente de forma inexplicável até então. Mas ainda era cedo demais para que eu pudesse compreender uma coisa tão complexa. É impressionante a maneira como as pessoas conseguem tornar complicadas coisas simples. E como eu estava acostumado com a simplicidade, não era o meu tempo de compreender.
***
Era uma segunda-feira. O sol se fazia visível entre as montanhas que foram erguidas potentes na vista do portão de minha casa. Era por volta de 11:30 e ainda com os olhos inchados de tanto dormir, cheguei na cozinha e lá estava minha mãe em seus a fazeres domésticos. Sempre presente nunca nos deixou um diz se quer sem as suas deliciosas guloseimas.
- Mãe, quando vamos à igreja de novo?
Com um ar de surpresa e satisfação, minha mãe deixou cair a colher de pau que amaciava uma panela de arroz sobre o fogão. Impressionada com uma indagação tão incomum. Característica pouco comum para um garoto que não conseguia verter uma palavra até a hora do almoço, replicou:
- O quê Getúlio? Você quer saber quando vamos à igreja de novo?
- É sim mãe. Quando? Só domingo?
- A gente pode ir amanhã, tem culto. Já sei! Você vai querer ir amanhã para não ter que ir domingo? Saiba Gê, que eu não vou dispensar você aos domingos!
- Não mãe. Eu vou amanhã e domingo também.
Conseguia ver plainando sobre a cabeça da minha querida mãe diversas interrogações de vários tamanhos e formatos. Sem entender absolutamente nada, voltou a conversar com o fogão em estado meditativo mexendo a panela de ensopado de carne seca com chuchu.
Sentei-me à mesa em meu estado comum de introspecção pela manhã e tomei meu café com quase um pão de sal do tipo bisnaga inteirinho. Ao final do meu café quase almoço, tomei um banho, vesti-me e fui para o colégio esperando ansiosamente pelo dia seguinte onde esperava realizar um feito ainda incompleto do dia anterior. Márcia já ocupava os meus pensamentos.