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Dez
07

vestígios de cafajeste

Mal coloquei os pés em casa e minha mãe já havia iniciado aquele sermão.

- Getúlio. Eu já te falei que eu detesto rebeldia. Você tinha que levantar na hora que nós levantamos.

- Pra quê? Eu não queria ir pra igreja.

- Mas você não tem que querer! Você é meu filho e vai pra onde eu for.

Certamente não tinha discussão com uma afirmação dessas. O que mais eu poderia falar? Que não iria e tomar uma bifa no pé da orelha? Eu decidi ficar calado, até porque eu já tinha arrumado motivos de sobra para continuar indo à igreja, apesar de meus objetivos discordarem totalmente dos de meus pais. Eu iria continuar. Mas uma coisa me sobreveio repentinamente. Por que eu tinha que ir à igreja se não tinha vontade de ir? Falavam de céu, de inferno, de diabo e coisas do gênero. Serviam-me para colocar medo, mas nunca para me impor a necessidade de estar presente num templo religioso. Eu sabia o que era Deus, sabia o que era o correto e o errado. Esses conceitos de certo e errado, bem e mal já estavam gravados no meu consciente de forma inexplicável até então. Mas ainda era cedo demais para que eu pudesse compreender uma coisa tão complexa. É impressionante a maneira como as pessoas conseguem tornar complicadas coisas simples. E como eu estava acostumado com a simplicidade, não era o meu tempo de compreender.

***

Era uma segunda-feira. O sol se fazia visível entre as montanhas que foram erguidas potentes na vista do portão de minha casa. Era por volta de 11:30 e ainda com os olhos inchados de tanto dormir, cheguei na cozinha e lá estava minha mãe em seus a fazeres domésticos. Sempre presente nunca nos deixou um diz se quer sem as suas deliciosas guloseimas.

- Mãe, quando vamos à igreja de novo?

Com um ar de surpresa e satisfação, minha mãe deixou cair a colher de pau que amaciava uma panela de arroz sobre o fogão. Impressionada com uma indagação tão incomum. Característica pouco comum para um garoto que não conseguia verter uma palavra até a hora do almoço, replicou:

- O quê Getúlio? Você quer saber quando vamos à igreja de novo?

- É sim mãe. Quando? Só domingo?

- A gente pode ir amanhã, tem culto. Já sei! Você vai querer ir amanhã para não ter que ir domingo? Saiba Gê, que eu não vou dispensar você aos domingos!

- Não mãe. Eu vou amanhã e domingo também.

Conseguia ver plainando sobre a cabeça da minha querida mãe diversas interrogações de vários tamanhos e formatos. Sem entender absolutamente nada, voltou a conversar com o fogão em estado meditativo mexendo a panela de ensopado de carne seca com chuchu.

Sentei-me à mesa em meu estado comum de introspecção pela manhã e tomei meu café com quase um pão de sal do tipo bisnaga inteirinho. Ao final do meu café quase almoço, tomei um banho, vesti-me e fui para o colégio esperando ansiosamente pelo dia seguinte onde esperava realizar um feito ainda incompleto do dia anterior. Márcia já ocupava os meus pensamentos.


1 Resposta para “vestígios de cafajeste”


  1. Janeiro 2, 2008 às 10:47 am

    Oi Ramon. Feliz 2008 para vc também. Adorei o comentário lá no blog. Prometo focar nas coisas mais simples em 2008! Prometo mesmo. Fiquei feliz em conhecer esse novo projeto e fiquei pensando se ele não seria uma espécie de auto-biografia… Sabe às vezes penso que dedico pouco tempo a me conhecer a ficar só, justamente por sentir medo. Medo do que??? Nem sei… talvez medo de mim… Enfim, seu livro me fez pensar nisso. Lerei tudo em breve (provavelmente no trabalho… rs), aí te dou minhas opiniões via msn. Beijao!


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Sinopse

Getúlio Moreira, um homem que aos seus 8 anos de idade descobriu o que é se apaixonar. De personalidade tímida e bastante religioso, sua vida é cheia de boas aventuras amorosas e outras nem tão boas assim. Com todas as restrições de sua religião, conviveu em constante introspecção dividindo-se entre fé e paixão.

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