Batia 18h de uma terça-feira de verão. Como era comum, estava na rua jogando bola com os meus colegas. Você pode estar pensando que eu era um verdadeiro vagabundo, mas não é bem assim! Eu tinha algumas obrigações a cumprir pela manhã antes de ir à tarde para a escola. Caso eu quisesse brincar à noite com os colegas, tinha que estudar no mínimo uma hora durante a manhã e ajudar a minha mãe nos a fazeres domésticos. Não era nada fácil. Despedi-me de meus amigos após a partida de futebol. Fui direto pra casa. Minha mãe se espantou quando me viu lá já indo para o banho sem ninguém precisar me chamar. Se ela soubesse que minha motivação estaria me esperando na igreja, certamente entenderia que eu não estava ali somente para ir à igreja. Terminei meu banho, coloquei uma roupa razoável, e antes de todos, já estava pronto para ir à igreja. Às 18:40 todos estavam pronto. Batemos em retirada para a igreja.
Milhares de pensamentos, perguntas e respostas, indagações terríveis tomavam o meu ser. Sentia-me muito ansioso para ver Márcia novamente, aqueles olhos vívidos e rosto angelical ainda me persuadiam os sentidos. Finalmente chegamos à igreja. Sentei ao lado de meus pais, como era de praxe. Comecei a olhar ao redor tentando encontrar Maria e Márcia. Meu coração palpitava e eu pensava com meus botões “Será que elas não vieram?”. Como uma luz resplandecente que rasga as trevas, veio pela porta dianteira do templo olhando para frente como uma noiva entrando numa igreja se aproximando do altar. Meu coração parecia saltar, sentia uma alegria que me arrebatava os sentidos, era o dia em que eu conseguiria executar a tão esperada salada-mista. Ela se aproxima de mim, e baixinho fala para não chamar atenção de ninguém:
- Oi Gê, tudo bem? Ainda estou esperando a salada mista!
Duas coisas me deixaram pasmos. A primeira foi o fato de ela ter me chamado de Gê. Nunca ninguém naquela igreja se dirigia a mim assim. A segunda foi a audácia em expressar que estava esperando por uma coisa que eu também esperava. Fiquei atônito, imóvel por alguns segundos. Olhei para ela, impressionado com tanta atitude e falei baixinho:
- Oi, eu também estava esperando por isso.
Ela saiu de fininho, eu esperei uns breves minutinhos até que tudo se organizasse lá fora. Minha mãe percebera a razão de tanta euforia em ir para a igreja em plena terça-feira, apesar de não ter ouvido os nossos sussurros. Olhou-me de rabo de olho enquanto eu me preparava pra sair. Colocando a mão na minha perna esquerda segurando-me no banco perguntou:
- Pra onde você vai filho?
- Vou lá fora mãe, minha amiga me chamou pra conversar com os colegas lá fora. Posso?
- Mas não vai pra rua, ta bom?
- Ta bom mãe.
Parti feroz. Praticamente cego. Cheguei ao mesmo lugar do último encontro e uma surpresa. Só Márcia estava lá. Fiquei mais nervoso ainda. Não sei como descrever, mas o nervoso se assemelhava a uma vontade avassaladora de abraçá-la e começar a beijá-la como se fosse a última coisa que eu iria fazer na minha vida.
- Cadê a sua irmã?
- Ela não veio hoje, ficou em casa com o meu pai. Eu vim com minha mãe hoje.
- Hmm. Entendi. Então como a gente vai brincar de salada mista hoje?
- Não quero brincar de salada mista! – Exclamou com um olhar de tigresa expressando quintas intenções por detrás daqueles olhos lindos.
Fiquei extremamente confuso, sem saber o que falar ou fazer. Tentei romper o silêncio para não me sentir mais tímido do que eu estava e perguntei:
- Mas você estava esperando a salada mista?
- Sim. E você não?
- Pra falar a verdade, eu pensei nisso desde o Domingo, será que agora…
Antes que eu terminasse a frase, ela me puxou pelo braço para um canto onde não estava no campo de visão das pessoas nem que passavam pela rua nem que estavam dentro da igreja. Era um lugar com uma luz bem turva, embaixo de um pé de papola que impedia o livre curso da luz. Tinha um canteirinho com outras plantas e um lugarzinho onde era possível sentar-se. Sentamos juntos e, como um momento de magia, nos olhamos e aproximando-se lentamente fizemos com que nossos lábios se encontrassem. Ela respirou fundo, parecia estar apaixonada. Minhas mãos percorriam as suas pernas, subiam pela cintura e abraçava-lhe como se não quisesse deixá-la fugir. Os tímidos lábios de Márcia pareciam ter sido banhados no mel. Seu beijo era doce e extremamente carinhoso. Foram três minutos que pareceram uma eternidade. Minh’alma viajou pelo cosmos de mãos dadas com a alma de Márcia. Conseguia sentir o bater do coração de Márcia como se o seu coração estivesse em mim. Entreolhamos-nos sem verter uma palavra. Consegui romper um silêncio com um comentário que, para um garoto de nove anos caiu muito bem:
- Adorei essa salada mista.
Ela mal conseguia olhar nos meus olhos. Estava tímida ou arrependida? Não conseguia discernir a emoção que Márcia transparecia. Esperei mais uns segundos para ver se haveria alguma reação e perguntei:
- Você não gostou?
- Gostei. Muito! Estou com vergonha.
- Mas não precisa ter vergonha – falei aproximando-me dela em um afago carinhoso – só tem nós dois aqui e eu não vou contar isso pra ninguém.
- Eu sei, é porque é a primeira vez que eu beijo alguém. Eu queria beijar você no Domingo, mas não deu porque o culto acabou e tive que ir correndo. Eu nunca imaginei que pudesse ser tão bom. Eu senti um arrepio muito grande e parece que eu estava desmaiada.
Eu fiquei absolutamente sem palavras. Nunca podia imaginar que poderia causar uma sensação dessas em uma mulher. Ela preencheu-me com um abraço novamente, dessa vez roubando um beijo. Foi um bis do momento anterior, só que dessa vez com mais intensidade.
Foram vários beijos que se repetiram intercalados em conversas sobre família, religião e amigos. Nunca havia ficado tanto tempo amando uma mulher como naquele dia. Mais um marco sentimental foi cravado na minha mente e escrito na tábua de emoções do meu coração.
Meninooooo
Tu descobriu cedo o amor….